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Seu relógio está ajudando na corrida ou aumentando sua ansiedade?

  • Foto do escritor: Tiago Queiróz
    Tiago Queiróz
  • há 14 horas
  • 3 min de leitura

Frequência cardíaca, pace, sono e recuperação podem ser aliados do corredor, mas excesso de monitoramento pode transformar o treino em uma fonte de preocupação


Para muitos corredores, terminar um treino e imediatamente olhar para o relógio já virou parte do ritual. Pace médio, frequência cardíaca, distância, calorias, cadência, sono e até o tempo de recuperação aparecem na tela em poucos segundos. Os relógios inteligentes se tornaram companheiros inseparáveis de quem pratica corrida de rua.


A tecnologia trouxe benefícios importantes para os corredores. Com os dados registrados durante os treinos, é possível acompanhar a evolução, controlar a intensidade do exercício e estabelecer metas. O problema começa quando cada número passa a ser encarado como uma avaliação do desempenho — ou da própria saúde.


A pergunta, então, é: o relógio está ajudando você a correr melhor ou fazendo com que você fique cada vez mais preocupado com os números?

Quando os números viram protagonistas


Quem corre sabe que nem todo treino será igual. O pace pode variar de acordo com temperatura, umidade, terreno, sono, alimentação, estresse e até pelo cansaço acumulado dos dias anteriores.


A frequência cardíaca também sofre alterações naturais. Ela pode subir durante uma subida, em um dia mais quente ou simplesmente porque o corredor não descansou o suficiente.


Mesmo assim, é comum que o atleta veja um número diferente do habitual no relógio e imediatamente pense que há algo errado.


Uma frequência cardíaca mais alta pode gerar preocupação. Um pace mais lento pode ser interpretado como perda de condicionamento. Uma noite de sono considerada ruim pelo dispositivo pode fazer o corredor iniciar o dia acreditando que não está preparado para treinar.

O resultado é que uma ferramenta criada para ajudar pode acabar aumentando a pressão por desempenho.


A ansiedade por trás da alta performance


A busca por evolução faz parte da corrida. Melhorar o pace, aumentar a distância ou conquistar um novo recorde pessoal são objetivos que motivam milhares de atletas.


Mas quando o corredor passa a avaliar todos os treinos exclusivamente pelos números, a atividade física pode deixar de ser prazerosa.


O problema não está em acompanhar os dados, mas em permitir que eles determinem como o atleta se sente.


Um treino considerado “ruim” pelo relógio pode ter sido excelente para aquele momento. Uma corrida mais lenta pode ser exatamente o estímulo necessário para a recuperação. Da mesma forma, uma frequência cardíaca diferente do habitual não significa, por si só, que exista algum problema cardíaco.

O organismo está em constante mudança, e os números precisam ser interpretados dentro desse contexto.


O relógio não conhece toda a sua história


Os smartwatches são ferramentas de monitoramento, não equipamentos capazes de substituir a avaliação de um profissional de saúde.


Os dados podem ajudar o corredor a identificar padrões e acompanhar sua evolução, mas não devem ser utilizados isoladamente para diagnosticar doenças ou determinar se alguém está apto ou não para treinar.


Isso é especialmente importante quando aparecem sintomas como dor no peito, falta de ar fora do habitual, tontura, desmaio ou palpitações. Nesses casos, a prioridade não deve ser interpretar o gráfico do relógio, mas buscar avaliação médica.

Para quem pratica corrida regularmente, o acompanhamento profissional continua sendo fundamental para entender os limites do organismo e organizar a evolução dos treinos.


Corra pelos números — mas não só por eles


O relógio pode ser um grande aliado. Ele ajuda a controlar a intensidade, acompanhar distâncias, observar a evolução e até encontrar motivação para continuar.


Mas correr também é sentir.


É perceber a respiração, aproveitar o percurso, conversar com os amigos, conhecer novos lugares, aliviar o estresse e cruzar a linha de chegada com a sensação de dever cumprido.


Nem todo treino precisa bater recorde. Nem toda corrida precisa gerar uma medalha. E nem todo número diferente na tela representa um problema.

O melhor dado do treino talvez seja aquele que ajuda você a entender seu corpo sem fazer você esquecer de aproveitar a corrida.


No fim, o relógio deve estar no pulso — não no comando da sua cabeça.


Texto baseado em conteúdo do cardiologista Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore (CRM/SP 24264 | RQE 69372), livre-docente pela FMUSP e membro da Brazil Health.

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