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Quando correr deixa de fazer bem? Psicóloga alerta para os riscos da pressão por alta performance

  • Foto do escritor: Tiago Queiróz
    Tiago Queiróz
  • há 10 minutos
  • 4 min de leitura

Busca por melhores tempos, recordes e resultados pode transformar a corrida em fonte de ansiedade, frustração e desgaste emocional; autoconhecimento é apontado como ferramenta para equilibrar desempenho e bem-estar


A corrida de rua costuma estar associada à saúde, qualidade de vida e superação. Mas, para quem transforma o esporte em uma busca constante por melhores tempos, pódios e recordes, a linha entre motivação e cobrança excessiva pode ser cada vez mais difícil de perceber.


A pressão para evoluir, somada às comparações nas redes sociais e ao medo de não atingir as próprias expectativas, pode afetar não apenas o desempenho, mas também a saúde mental do atleta.

Segundo a psicóloga clínica e do esporte Andressa Carneiro (euandressa.psi), a alta performance exige muito mais do que preparo físico.


“Alta performance exige muito do corpo e principalmente da mente. Ela deixa de ser saudável quando começa a afetar a qualidade de vida e o bem-estar do atleta, passando a ser um problema e não o objetivo”, explica.

A especialista destaca que a ansiedade, por exemplo, não deve ser encarada necessariamente como algo negativo.


"Trata-se de uma resposta natural do organismo, presente em diferentes situações da vida. O problema aparece quando esse sentimento passa a interferir na rotina e na capacidade do atleta de lidar com os desafios."

A pressão por resultados pode desencadear estresse, alterações no sono, mudanças na alimentação, irritabilidade e até procrastinação.


“Quando não estamos bem emocionalmente, nossa mente entra em distorções cognitivas”, afirma Andressa.

Ambição ou autocobrança?


Ter metas e buscar evolução faz parte da trajetória de qualquer corredor que deseja melhorar seu desempenho. O problema está quando a corrida deixa de ser uma atividade prazerosa e passa a ser encarada como uma obrigação permanente de superação.


Para Andressa, a diferença está justamente na forma como o atleta estabelece seus objetivos e compreende os próprios limites.


“Se tornar um atleta exige muito, afinal o esporte vem com preparo, rotina, constância, foco e também com metas bem definidas e estruturadas. Quando não há um objetivo específico, quando não há autoconhecimento, o atleta pode desenvolver autocobrança, estresse e frustração. Nesse cenário, a perda de interesse e o desânimo com o esporte podem surgir justamente em quem começou a correr buscando mais saúde e qualidade de vida.”, explica.

A comparação com o corredor da internet


As redes sociais também podem contribuir para aumentar a pressão. Tempos baixos, medalhas, pódios, treinos intensos e conquistas aparecem diariamente no feed de quem pratica corrida. Para quem está em outro estágio, acompanhar essas publicações pode alimentar a sensação de que está ficando para trás.


Andressa lembra, porém, que as redes sociais representam apenas uma parte da realidade.


“A rede social é uma vitrine. É comum que corredores se inspirem em outras pessoas, mas também passem a comparar suas próprias trajetórias com aquilo que veem na internet".

"Um corredor que reduziu seu tempo, completou uma distância inédita ou simplesmente conseguiu manter a rotina de treinos pode deixar de valorizar esses avanços por considerar insuficiente o desempenho quando comparado ao de outro atleta", completa.

Por isso, a psicóloga defende que o corredor faça uma pergunta antes de estabelecer suas metas: qual é o seu objetivo no esporte e onde você quer chegar?


A partir daí, segundo ela, é possível estruturar estratégias e um planejamento mais realista.


Quando o treino aumenta, mas o resultado não aparece


Outro momento delicado ocorre quando o atleta aumenta a carga de treinamento, mantém a dedicação, mas não consegue melhorar os resultados. A frustração pode alimentar ainda mais a cobrança e criar um ciclo prejudicial.


“Nesse momento, é importante realizar um automonitoramento emocional, focar nas necessidades básicas, como sono, hábitos e alimentação, realinhar o objetivo e criar um plano estratégico de ação”, orienta.

"A pressão constante também pode provocar medo de correr abaixo do melhor tempo ou de decepcionar treinador, familiares e até a si próprio. Quando o atleta acredita que precisa entregar 100% em todos os treinos e provas, o desgaste pode ultrapassar a esfera emocional", acrescenta.

De acordo com Andressa, "a falta de autoconhecimento pode elevar o nível de cobrança e até contribuir para o surgimento de lesões relacionadas ao estresse e ao desrespeito aos limites físicos".


Disciplina também precisa ter limite


A disciplina é uma das principais características de quem consegue manter uma rotina de treinamento. A autocobrança, inclusive, não é necessariamente prejudicial e pode funcionar como fonte de motivação.


O sinal de alerta aparece quando a cobrança começa a gerar prejuízos.


“Identificamos prejuízos quando passa a afetar o desempenho, interesse e vontade. Quando passo a exceder demais nos treinos e a não respeitar os limites físicos e mentais”, explica.

Entre os sinais que merecem atenção estão exaustão mental, desesperança, desânimo, sensação de fracasso, perda de controle emocional e baixa autoestima. Nessas situações, a orientação é conversar com a equipe técnica e buscar profissionais especializados em saúde mental.


Lesões e a perda da identidade esportiva


Para corredores que construíram grande parte da identidade pessoal em torno do desempenho esportivo, uma lesão ou período de afastamento pode ser especialmente difícil.


A mudança repentina na rotina, nos treinamentos e nos planos pode funcionar como um gatilho emocional. Segundo Andressa, é necessário aceitar as condições momentâneas e buscar novas formas de atuação e novos papéis sociais.


"Esse processo também pode aparecer em momentos de transição de carreira ou aposentadoria esportiva, quando o atleta precisa encontrar novas maneiras de se relacionar com a própria identidade".


Alta performance sem sofrimento


Para a psicóloga, o caminho para buscar evolução sem transformar a corrida em fonte de sofrimento passa pelo autoconhecimento.


"O corredor precisa compreender seus objetivos, limitações e necessidades para estabelecer estratégias compatíveis com sua realidade. Também é importante reconhecer pequenas conquistas e desenvolver uma relação mais empática consigo mesmo. Aprenda a validar suas conquistas, mesmo as menores. Seja autocompassivo, exerça se ver de uma forma mais empática, mesmo diante da autocobrança”, aconselha.

A busca pela evolução, portanto, não precisa ser abandonada. O desafio é evitar que o desempenho se torne a única medida de valor do corredor.


“Dias ruins fazem parte da vida, só não torne esses dias como rotina na sua vida. Cuide-se!”, finaliza Andressa Carneiro.

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