Do clique à linha de chegada: Laert Fortunato transforma corrida de rua em cenário para contar histórias

A rotina começa quando a maioria das pessoas ainda está dormindo. Por volta das 3h da manhã, Laert Fortunato, 38 anos, se prepara para mais um dia de trabalho. Às 4h, já está correndo. Uma hora depois, troca o papel de atleta pelo de fotógrafo e começa a registrar os participantes das provas de rua em Salvador. Até o fim da manhã, são milhares de cliques para transformar esforço, emoção e superação em imagens.
A relação de Laert com a fotografia, no entanto, começou muito antes da corrida. Ainda jovem, teve contato com uma câmera de filme simples e se encantou pela possibilidade de registrar momentos. Naquela época, cada fotografia era acompanhada pela expectativa da revelação.
“Antes de revelar, era aquela expectativa de saber como ficou a foto. Hoje estamos no mundo conectado. Eu clico e já consigo enviar para a pessoa quase na mesma hora em que a fotografia foi feita”, lembra.
A trajetória profissional atrás das lentes começou com a cobertura de eventos, passou pela fotografia de paisagens e ganhou um novo caminho durante a pandemia, quando Laert se aproximou da atividade física e começou a correr. A câmera, que já fazia parte de sua rotina, acompanhou a mudança.
“Primeiro eu fui fotógrafo, resolvi ser atleta e hoje sou híbrido: registro e tento correr também”, brinca.

Antes da largada
O trabalho de um fotógrafo de corrida começa muito antes de os corredores ocuparem as ruas. Para conseguir bons registros, Laert procura conhecer o percurso, identificar pontos estratégicos e imaginar previamente as composições que pretende fazer.
Quando possível, visita o local um dia antes. No dia da prova, chega cedo para garantir a posição escolhida e esperar o movimento começar.
“O ideal é você conhecer cada detalhe do percurso. Se você já conhece, imagina os lugares onde já ficou e consegue ter uma ideia da composição que vai fazer. Você chega cedo para guardar o seu lugar, para que outras pessoas não façam a mesma composição que você imaginou. Isso enquanto os corredores ainda nem pensaram em sair de casa”, explica.
A partir daí, começa uma verdadeira maratona atrás das lentes. Dependendo do tamanho da prova, Laert produz cerca de 10 mil fotografias. Em uma das corridas que cobriu, chegou a fazer 50 mil registros.
Depois da prova, o trabalho continua diante do computador. É hora de selecionar as imagens, fazer os ajustes e preparar o material que será entregue aos atletas.
“Começamos a editar, vemos o que está bom e o que está ruim, clareamos, escurecemos, mudamos a cor. A gente melhora a foto para deixar todos mais bonitos e entregar o melhor produto possível. Depois sobe o material para a plataforma e fica aguardando vocês comprarem”, conta.

Além da fotografia, Laert também passou a cuidar da divulgação do próprio trabalho nas redes sociais, incorporando uma nova função à rotina profissional.
“Além de fotógrafo de atleta, acabo sendo um pouquinho de social media”, resume.
O desafio de fotografar em movimento
Diferentemente de outros segmentos da fotografia, a cobertura esportiva exige decisões rápidas. O fotógrafo precisa lidar com mudanças de iluminação, chuva, sol, veículos e o movimento constante dos corredores.
“A fotografia esportiva é sempre desafiadora por conta dos fatores externos. É sempre muito dinâmico”, afirma.
Para Laert, porém, a capacidade de encontrar o momento certo pesa mais do que o equipamento utilizado.
“Na verdade, acho que é mais o olhar do fotógrafo do que o equipamento. Claro que hoje existem equipamentos que facilitam muito o nosso trabalho. Uma tela que chega perto das pessoas, por exemplo, facilita bastante”, explica.

Histórias por trás das lentes
Entre tantos registros, alguns acabam se tornando especiais. Laert guarda na memória imagens de atletas e personalidades que passaram pelas provas e treinos acompanhados por ele.
Uma delas envolve a influenciadora conhecida como “Corre com a Lu”, que havia chegado recentemente a Salvador e sentiu os efeitos do calor durante um treino.
“Ela sentiu a diferença do clima. A primeira coisa que fez foi tirar a camisa depois do treino e espremer o suor. Eu tenho esse registro dela derramando o tanto de esforço que teve naquele treino”, recorda.
Laert também já registrou nomes conhecidos, como Bell Marques e integrantes do Guns N’ Roses durante corridas na orla de Salvador. Para ele, entretanto, a relevância de uma fotografia não está necessariamente na fama de quem aparece nela, mas na história que aquele momento representa.
“Para mim, é muito satisfatório registrar a batalha diária, registrar a luta e, no final, mostrar para que serviu toda essa luta. Estar no dia a dia e nos treinos é muito importante para ver o esforço de cada um. Mas estar em uma prova grande, vendo o resultado de cada treino, é espetacular. É emocionante”, destaca.


Um esporte que ganhou as ruas
A convivência com atletas e provas também fez Laert acompanhar de perto a expansão da corrida de rua. Para ele, o crescimento da modalidade vem acompanhado de novas demandas, principalmente relacionadas à estrutura e à segurança de quem pratica o esporte.
“A corrida de rua tomou uma proporção gigantesca. Eu acredito, como parâmetro mundial, que a tendência é continuar crescendo. A Bahia tem que se adequar a esse novo mercado e a essas novas necessidades”, avalia.
O fotógrafo defende que o crescimento da modalidade seja acompanhado por medidas que garantam mais segurança aos corredores, especialmente durante as provas realizadas em vias de grande circulação.
“Temos que ter políticas para conseguir preservar a vida das pessoas. Fechar vias e fazer vias exclusivas para a corrida, com essa demanda tão grande de espaço, é algo que o poder público tem que pensar mais: como proteger os atletas”, defende.

O conselho de quem encontrou seu caminho
Entre a fotografia, a corrida e a rotina de provas, Laert encontrou uma forma de unir duas atividades que passaram a fazer parte da sua vida. Para quem pretende seguir na fotografia, ele destaca a importância da preparação, mas também da identificação com o próprio trabalho.
“Se dedique, como em qualquer outra atividade. A dedicação, o estudo, a persistência e o conhecimento técnico ajudam você a chegar ao seu objetivo. Mas você precisa saber que tem um dom para isso. Quando você encontra seu caminho e entende quem você é de verdade e o que quer da sua vida, fica mais fácil trabalhar. O trabalho flui mais fácil. Se você acha que é seu sonho, se jogue”, aconselha.

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