Rafael Peralva no Podamigos: “A corrida virou hype e as pessoas querem resultado imediato”
- Tiago Queiróz
- há 1 hora
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O crescimento acelerado da corrida de rua no Brasil tem atraído cada vez mais adeptos, mas também levanta preocupações entre treinadores e especialistas. A avaliação é do triatleta e educador físico Rafael Peralva, de 46 anos, que soma mais de duas décadas dedicadas ao esporte.
A análise foi feita durante entrevista concedida na última segunda-feira (9) ao podcast Podamigos, apresentado pelo corredor e influenciador Alexsandro de Souza, criador do canal Amigos Correm. Proprietário da Peralva Assessoria, o treinador compartilhou reflexões sobre a popularização das corridas e os desafios enfrentados por atletas amadores.
Com mais de 25 anos no triathlon, Peralva acumula experiência em diferentes distâncias. Foram 15 anos competindo em provas sprint e olímpicas, além de oito Ironmans e dois Ultramans.
Segundo ele, a atividade física passou a ocupar um papel muito mais relevante na vida das pessoas nos últimos anos.
“Antigamente a atividade física era mais uma brincadeira ou um momento de lazer. Hoje ela é uma ferramenta de transformação na vida de muita gente, ajudando a mudar hábitos e até a sair de processos de depressão e de doenças”, afirma.
Apesar do cenário positivo, o treinador observa que o crescimento da corrida de rua também trouxe desafios, especialmente pela busca por resultados rápidos.
“A corrida de rua está crescendo de forma absurda, e isso tem lados positivos e negativos. Por um lado, muita gente está mudando hábitos, saindo de quadros de depressão e de doenças por meio do esporte. Por outro, esse crescimento também traz um imediatismo: as pessoas querem resultados rápidos. Mas resultado de verdade exige regularidade, constância e disciplina.”
Busca por maratonas sem preparo preocupa
Segundo Peralva, um dos fenômenos mais comuns atualmente é a procura por provas longas, como maratonas, mesmo entre iniciantes.
“Meu papel como professor não é só periodizar e prescrever o que acredito, mas orientar o aluno. Nem sempre consigo, porque muitas vezes preciso atender ao que ele quer. É difícil dizer: ‘você ainda não vai fazer uma maratona’. Tudo o que falo vem da minha vivência e do que aprendi com meus treinadores. Antigamente, o foco era performar nos 5 km. Hoje, muita gente quer apenas completar a maratona, pagar uma promessa ou ter essa sensação de pertencimento.”, observa.
Para ele, cada atleta precisa respeitar sua individualidade biológica, algo que nem sempre acontece.
“O correto seria fazer avaliações para entender a capacidade física de cada pessoa. Pelo que aprendi ao longo da minha trajetória, é fundamental que as pessoas passem a entender melhor o próprio corpo — não apenas olhando para o GPS, mas compreendendo de fato como ele funciona. Mas muitas vezes o atleta ignora isso e acaba treinando do jeito que quer”, pontua.

“Hoje estou em um momento da minha vida em que não sou tão competitivo, mas continuo treinando todos os dias. É a fase que estou vivendo. Sempre digo aos meus alunos: se você fez uma prova, teve um bom resultado, o ciclo de treinos encaixou, sem lesões e o objetivo foi alcançado, curta o processo. É preciso internalizar isso e deixar as coisas acontecerem. As pessoas estão muito preocupadas com resultados rápidos e em bater pace. O mais importante é fazer bem feito, respeitando a própria capacidade.”
Nesse contexto, o professor e triatleta também faz uma crítica ao que considera uma crescente preocupação com a estética e o status dentro do esporte, em detrimento do preparo físico e da orientação adequada.
“Infelizmente, hoje as pessoas estão querendo combinar a cor do cadarço com a cor do tênis, da camisa ou de outros acessórios, mas não para estar bonito, e sim para mostrar que estão bonitas. Isso, na minha visão, não tem longevidade nem permanência, é muito mais uma questão de status”, afirma.
Ele também alerta para o uso inadequado de equipamentos, como os tênis de placa, indicados para atletas com determinadas características de desempenho.
“Uma pessoa que pesa acima de 80 ou 90 kg, correndo com pace de 5:40, 6:00 ou 6:20, por exemplo, pode não se beneficiar desse tipo de tênis. Esse modelo é muito responsivo e tende a projetar o corredor para frente. Quem tem mais contato com o solo precisa de um calçado com maior suporte e drop mais alto, que absorva melhor o impacto da pisada e do peso corporal”, explica.

Corridas também viraram entretenimento
Durante a entrevista, o treinador também comentou o crescimento das corridas associadas a grandes eventos temáticos e artistas, que atraem milhares de participantes.
Para Peralva, esse fenômeno pode ser positivo por atrair novos praticantes, mas exige atenção, principalmente entre pessoas sedentárias.
“Essas corridas são uma festa e funcionam como porta de entrada para muita gente. Para esse público do entretenimento e da festa, não tem muito para onde correr. Bell Marques tem um nome gigantesco. Se você olhar a Corrida 100% Você, que reúne 10, 15 mil pessoas, grande parte está ali porque é fã, porque quer ouvir o som dele. E está tudo certo. O que eu não acho legal é o fã sedentário não fazer um exame cardiológico e se arriscar a correr 5 km ou 10 km sem nenhuma capacidade física. Graças a Deus, não tem acontecido nada. Acho que a organização deveria orinetar esses participantes sobre a necessidade do exame cardiologico e que, não vá somente para a festa, mas se prepare também.".
Esporte como ferramenta de transformação
Mesmo com as críticas ao imediatismo e à busca por status no esporte, Peralva defende que a corrida continua sendo uma poderosa ferramenta de transformação pessoal.
Na assessoria que coordena, ele afirma que o objetivo é desenvolver cada atleta dentro de suas próprias capacidades.
“Eu tento extrair o máximo do aluno dentro da capacidade dele. O mais importante é entender o processo, ter paciência e construir uma relação saudável e duradoura com o esporte”, conclui.
Veja entrevista na íntegra:




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