Das plantações de café às pistas do Brasil: a história de superação de Janine Reis
- Tiago Queiróz
- há 1 dia
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Enquanto o universo das corridas de rua exibe cada vez mais visibilidade, grandes estruturas e forte apelo nas redes sociais, a realidade de boa parte dos atletas amadores segue distante dos holofotes. Por trás das medalhas e das fotos de chegada, milhares de corredores e corredoras enfrentam uma rotina marcada por sacrifícios, renúncias e dificuldades financeiras para manter vivo o sonho de competir. São trabalhadores que conciliam treinos com jornadas exaustivas, responsabilidades familiares e limitações econômicas.
A história da baiana Janine Reis, de 33 anos, é um retrato fiel dessa realidade. Nascida em Gandu e criada em Teolândia, no Baixo Sul da Bahia, a atleta transformou uma vida marcada pelo trabalho rural, pela maternidade precoce e pelas dificuldades financeiras em uma trajetória de destaque nas corridas de rua e no atletismo nacional.

Filha de uma trabalhadora rural, Janine cresceu em uma família humilde ao lado de dois irmãos, criada pela mãe e pela avó após a ausência do pai. A infância foi marcada por desafios e privações, mas também pelo exemplo de força e determinação de sua mãe.
“Minha mãe criou três filhos praticamente sozinha. Foi muito difícil, mas ela nunca desistiu. Sempre foi muito guerreira e batalhadora”, relembra.
Antes de descobrir o talento para a corrida, Janine acumulou diferentes experiências de trabalho para ajudar no sustento da família e da filha. Foi babá e trabalhou na colheita de café, além de atuar em plantações de cacau, banana e graviola.

Foi em meio à rotina exaustiva nas lavouras que ela aprendeu o valor do trabalho e da persistência. As diárias, que variavam entre R$ 40 e R$ 60, ajudavam a complementar a renda familiar.
“Eu ganhava, em média, R$ 50 por diária trabalhando na roça. Até hoje me emociono quando falo dessa época. Só quem vive sabe o que é passar por tantas dificuldades. Nunca cheguei a passar fome, mas muitas vezes não conseguia dar à minha filha tudo o que ela precisava.”
A corrida entrou na vida de Janine durante a pandemia da Covid-19. O responsável por apresentar o esporte à atleta foi o primo Bruno, que a convidou para um treino sem imaginar que estava diante de um talento natural. Sem conhecer conceitos básicos do atletismo, como pace ou controle de ritmo, Janine completou seus primeiros cinco quilômetros em apenas 25 minutos.
“Ele ficou impressionado e disse que eu levava jeito para aquilo. Depois me inscreveu em uma corrida virtual e, para nossa surpresa, fui campeã. A partir dali comecei a treinar mais e me apaixonar pela corrida.”

O que começou como uma atividade casual rapidamente se transformou em um projeto de vida. Os bons resultados nas corridas de rua chamaram a atenção de treinadores e abriram as portas para novos desafios.
“Eu não virei logo atleta de elite. Teve todo um processo. Fui participando das corridas e comecei a me destacar. Conhecei meu primeiro professor, o Isaías, em uma prova lá em Feira de Santana. Foi ele quem me deu as primeiras orientalções sobre treinos e planilhas".
Atualmente, Janine tem sua carreira acompanhada pelo técnico Osvaldo Nogueira, do Team Nogueira, equipe pela qual passou a integrar o alto rendimento e a dividir treinamentos com uma das maiores referências do atletismo baiano, a multicampeã Jeane Barreto.
“Participei de uma corrida em Gandu, onde corri com Jeane. Fizeram um vídeo de nós duas na largada que acabou repercutindo. Voltei para casa e, um dia, enquanto colhia café, Nogueira entrou em contato comigo. Começamos a conversar e, algum tempo depois, ele me convidou para fazer parte do Team Nogueira. Desde o início, sempre acreditou no meu potencial, falava do meu talento e dizia que Deus iria abrir portas para mim. Hoje, somos uma família.”
Sobre a púpila, Nogueira não poupa elogios:
"A Janine é uma atleta por quem tenho muito carinho e respeito.Já estamos há cerca de três anos construindo uma trajetória de evolução, confiança e conquistas. Além de ser uma excelente atleta, Janine é uma pessoa humilde, batalhadora, comprometida e leal. Tenho muito orgulho de fazer parte da sua caminhada e acompanhar seu crescimento dentro e fora das pistas.
Conquistas - Em poucos anos de carreira, Janine acumulou resultados expressivos tanto nas corridas de rua quanto nas pistas.
Entre as provas mais marcantes estão a Maratona Salvador, a Blue Run, a Feira Night Run e a participação na tradicional Corrida Internacional de São Silvestre, em São Paulo.
“Cada corrida tem um significado diferente na minha vida. A São Silvestre foi uma experiência inesquecível. Tenho fé que vou voltar lá e melhorar meu resultado.”
O momento mais recente e histórico da carreira aconteceu no último fim de semana, durante o Troféu Norte-Nordeste Loterias Caixa de Atletismo Adulto, realizado em Recife. Representando a Bahia, Janine conquistou três medalhas: prata nos 800 metros, prata nos 5.000 metros e bronze nos 1.500 metros.
“Foi um momento muito especial para mim e para todo o atletismo baiano. Conseguimos um resultado histórico para a Bahia, e tenho muito orgulho de ter contribuído para essa conquista. Estar entre as atletas mais medalhadas da delegação torna tudo ainda mais gratificante. É uma felicidade enorme, daquelas que não cabem no peito.”

Falta de apoio - Além dos desafios esportivos, Janine também precisa conciliar a rotina de atleta de alto rendimento com a maternidade. Mãe de uma adolescente de 12 anos, ela destaca a importância da rede de apoio formada pela mãe, pela avó, pela tia e pelo pai da menina.
“Ser mãe e atleta é muito difícil. Tem treinamento, viagens, reuniões na escola e responsabilidades dentro de casa. Graças a Deus, minha filha é uma bênção. Tenho o suporte da minha mãe, da minha tia e da minha avó, além do pai dela, que também é presente.”
Apesar dos resultados expressivos nas pistas, Janine afirma que ainda enfrenta dificuldades para conseguir apoio financeiro. Mesmo diante dos obstáculos, nunca deixou de acreditar nos próprios sonhos.
“Já pensei em desistir muitas vezes, principalmente pela falta de patrocínio e incentivo. Tem horas que a gente chora, fica triste e se sente desvalorizada. Mas eu sempre levanto a cabeça, coloco Deus na frente e sigo em frente. Hoje tenho a minha equipe, o professor Nogueira, minha amiga Jeane, além da minha família e dos meus amigos.”
Mesmo com os títulos e o reconhecimento conquistados nas pistas, Janine mantém os pés no chão e os sonhos vivos. Ela deseja ampliar sua estrutura de treinamento, conquistar novos patrocinadores, ajudar a mãe e realizar objetivos pessoais que ficaram para trás durante anos de luta pela sobrevivência.
“Hoje já consigo dar uma vida melhor para minha filha, comprar algumas coisas, mesmo que parceladas. Ainda tenho sonhos, como ajudar minha mãe e fazer um tratamento dentário que, por enquanto, não tenho condições de pagar. Mas sei que vou conseguir. Acredito que o atletismo entrou na minha vida para promover mudanças de verdade”, afirma.

“Para quem mora no interior, os desafios são maiores. O acesso ao transporte, à saúde e à educação costuma ser mais difícil. Mas eu aprendi que, quando existe força de vontade e determinação, é possível superar os obstáculos e seguir em frente em busca dos seus sonhos”, completa.
Para as meninas do interior da Bahia que sonham em transformar suas vidas por meio do esporte, ela deixa um recado simples, mas poderoso:
“Nunca desistam dos seus sonhos. Eu venho de uma família muito humilde, moro em um povoado, tenho uma vida simples e enfrento muitas dificuldades. Mas continuo acreditando. Quando a gente tem fé, força de vontade e corre atrás, uma hora a oportunidade chega. Sonhem alto, porque o céu é o limite.”




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