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Cardiologista Eduardo Lisboa alerta sobre uso de cafeína, energéticos e pré-treinos por corredores

Foto do escritor: Tiago Queiróz
Tiago Queiróz
1 de set.
4 min de leitura


O uso de cafeína, energéticos e pré-treinos se tornou cada vez mais comum entre corredores que buscam disposição, concentração e melhora do desempenho. Mas até que ponto o consumo de estimulantes pode representar um risco para o coração, especialmente durante a prática esportiva?


Para esclarecer dúvidas sobre o tema, o cardiologista Eduardo Lisboa, que tem 15 anos de atuação e é especializado em cardiologia e medicina esportiva, explica os efeitos da cafeína, os cuidados com energéticos e pré-treinos e os sinais que não devem ser ignorados durante a corrida. Segundo o especialista, o problema não está necessariamente no consumo habitual de café, mas principalmente no excesso e na combinação de diferentes fontes de estimulantes.


VEJA ENTREVISTA COMPLETA:



BahiaRun360 — Cafeína antes da corrida pode aumentar o risco cardíaco?


Eduardo Lisboa — Em geral, não é correto dizer que uma quantidade habitual de cafeína aumenta, por si só, o risco de uma arritmia grave.


A diretriz de fibrilação atrial da American Heart Association/American College of Cardiology destaca que o consumo de cafeína em quantidades usuais não está associado a um maior risco de fibrilação atrial. Portanto, para a maioria das pessoas saudáveis, uma xícara de café antes do exercício não deve ser encarada como uma ameaça ao coração. O problema aparece quando a cafeína deixa de significar apenas uma xícara de café e passa a representar doses elevadas ou a combinação de vários produtos estimulantes.

Além disso, a cafeína pode provocar sensação de coração acelerado, aumentar a percepção dos batimentos e, em algumas pessoas, causar palpitações mesmo sem existir uma arritmia perigosa. Existe, portanto, uma diferença importante entre sentir o coração bater mais forte e ter uma arritmia clinicamente relevante.


BahiaRun360 — Energéticos são diferentes de café?


Eduardo Lisboa — Sim. O café, em sua forma tradicional, tem como principal substância estimulante a cafeína. Já os energéticos podem fornecer cafeína em doses variadas e associá-la a outros ingredientes estimulantes.


Não devemos comparar simplesmente “uma bebida energética” com “um café”. É necessário verificar a quantidade de cafeína presente no produto e o que mais está sendo consumido junto. As diretrizes de fibrilação atrial chamam a atenção para casos relacionados ao consumo excessivo de cafeína e, especificamente, a bebidas energéticas altamente cafeinadas.

Para o corredor, a regra prática é simples: leia o rótulo e some a cafeína de todas as fontes consumidas ao longo do dia, como café, energético, pré-treino, gel ou outros produtos que eventualmente contenham cafeína.


BahiaRun360 — Quem tem palpitações deve evitar estimulantes?


Eduardo Lisboa — Não necessariamente para sempre, mas não deve simplesmente ignorar o sintoma.

Palpitação é uma sensação e pode significar coisas muito diferentes: desde algumas batidas “falhando” ou uma percepção mais intensa dos batimentos até uma taquicardia sustentada. Em atletas, é particularmente importante saber quando a palpitação acontece.


Palpitações que surgem durante o exercício, principalmente quando são abruptas, muito rápidas ou acompanhadas de desmaio ou quase desmaio, merecem investigação médica. É importante diferenciar palpitações benignas de taquicardias supraventriculares ou ventriculares e investigar o uso de cafeína e suplementos energéticos.

A Diretriz Brasileira de Cardiologia do Esporte também considera palpitações, síncope, dor no peito, falta de ar e tontura relacionados ao exercício como sinais que devem chamar a atenção durante a avaliação do esportista.


Se alguém percebe que as palpitações aparecem repetidamente depois de consumir café, energético ou pré-treino, o ideal é interromper o uso daquele estimulante até esclarecer a causa e conversar com um médico, especialmente se os sintomas ocorrerem durante a corrida.

BahiaRun360 — Misturar energético, pré-treino e café é perigoso?


Eduardo Lisboa — É uma combinação que deve ser evitada, principalmente quando o corredor não sabe exatamente quanto de cafeína está ingerindo.


O problema não é uma suposta “toxicidade” específica da mistura de café, energético e pré-treino, mas a soma de doses de estimulantes sem que a pessoa perceba. Essa combinação pode resultar em uma exposição muito maior à cafeína, além de outros estimulantes eventualmente presentes no pré-treino.

Isso pode favorecer sintomas como tremor, ansiedade, aumento da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial e palpitações. Em situações de consumo excessivo, pode haver predisposição à fibrilação atrial.

O risco não está necessariamente em um produto isolado, mas em transformar vários produtos estimulantes em uma única “dose”.


BahiaRun360 — Quanto tempo antes da prova o corredor deveria evitar determinados estimulantes?


Eduardo Lisboa — Não existe uma recomendação universal sobre suspender estimulantes antes de uma prova por segurança cardíaca. Para quem já utiliza cafeína habitualmente e não apresenta sintomas, a questão é muito mais de dose e tolerância individual do que de uma proibição universal antes da competição.

Já para quem apresenta palpitações, taquicardia, pressão arterial elevada ou sintomas relacionados ao uso de estimulantes, a recomendação deve ser mais conservadora: não fazer experiências com estimulantes no dia da competição.

A melhor estratégia é testar qualquer estratégia nutricional ou estimulante durante os treinamentos, em doses conhecidas e individualizadas, e nunca transformar a prova em um laboratório.


BahiaRun360 — Qual seria a principal recomendação para o corredor que utiliza cafeína, energético ou pré-treino?


Eduardo Lisboa — Café não é sinônimo de perigo cardíaco. Em quantidades habituais, a cafeína não demonstrou aumentar o risco de fibrilação atrial na população geral.


Energéticos e pré-treinos exigem mais atenção porque a quantidade total de cafeína e a presença de outros estimulantes podem variar.


E existe uma regra especialmente importante para quem corre: se a palpitação vier acompanhada de desmaio ou quase desmaio, dor no peito, falta de ar desproporcional ou acontecer de forma abrupta durante o esforço, é necessário procurar avaliação médica com brevidade.

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