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Presidente da ABADEF expõe desafios dos atletas PCDs nas corridas de rua: “Ainda existe desconhecimento sobre a inclusão”

  • Foto do escritor: Tiago Queiróz
    Tiago Queiróz
  • há 7 minutos
  • 5 min de leitura

A corrida de rua cresce na Bahia e reúne cada vez mais participantes em busca de saúde, qualidade de vida e superação. Para os atletas com deficiência (PCD), no entanto, o acesso à modalidade ainda esbarra em uma série de obstáculos. A falta de provas específicas, categorias, premiações e estruturas adequadas revela que a inclusão ainda está longe de ser uma realidade plena.


Para discutir esse cenário, o Bahia Run 360 conversou com Silvanete Brandão, presidente da Associação Baiana dos Deficientes Físicos (ABADEF). Sua relação com a entidade começou há cerca de 30 anos, quando conheceu Luíza Câmara, ativista e fundadora da associação, que a convidou a participar da instituição. Desde então, Silvanete atua na defesa dos direitos das pessoas com deficiência e acompanha de perto os desafios enfrentados por esse público.


Na entrevista, ela destaca a necessidade de ampliar o conhecimento sobre o paradesporto, cobrar políticas públicas e criar condições para que os atletas PCD possam ocupar as ruas não apenas como participantes, mas como protagonistas das corridas.



Bahia Run 360 — Como a senhora avalia a participação dos atletas PCD nas corridas de rua realizadas na Bahia atualmente?


Silvanete Brandão — Para falar sobre a participação dos atletas PCD nas corridas de rua, a gente precisa primeiro destacar que ainda não existem corridas de rua especificamente voltadas para esses atletas.


O que existe hoje são inscrições de pessoas com deficiência em algumas provas, mas não há, de forma consolidada, uma modalidade e uma premiação específicas para esse público.

Esse é um grande desafio que a ABADEF tem hoje: promover também eventos desse cunho para os nossos associados. Temos atletas que são premiados fora da Bahia, mas ainda não temos essa modalidade aqui como um dos grandes carros-chefes do atletismo para as pessoas com deficiência.


Bahia Run 360 — As corridas existentes oferecem estrutura adequada para a participação dos atletas PCD?


Silvanete Brandão — Ainda não. As estruturas das corridas também não são adequadas. Não temos ainda uma estrutura que faça com que essa modalidade chegue de forma organizada aos atletas com deficiência.


Também não existem kits, locais e estruturas de pós-prova pensados especificamente para esses atletas.


É preciso que o atleta seja contemplado em todas as etapas do evento, e não apenas no momento da inscrição.

Bahia Run 360 — Quais são as principais barreiras enfrentadas pelos atletas PCD para participar de uma corrida?


Silvanete Brandão — A primeira dificuldade é justamente a falta de uma estrutura específica.


Isso envolve inscrição, retirada do kit, deslocamento, acesso ao local do evento e toda a estrutura necessária para que ele possa competir com segurança e dignidade.

As vias públicas também não estão adaptadas para as pessoas com deficiência, e isso acaba sendo mais um obstáculo. É preciso pensar a acessibilidade de maneira ampla, não apenas dentro do espaço onde acontece a corrida.


Bahia Run 360 — Como a senhora avalia a questão da premiação e das categorias para os atletas PCD?


Silvanete Brandão — Aqui em Salvador e na Bahia, não temos conhecimento de como ocorre uma premiação específica para os atletas com deficiência que participam das corridas de rua. O que a gente imagina é que eles devem ser premiados como todos os outros atletas. Mas ainda falta uma estruturação dessa modalidade.

Também precisamos discutir categorias que contemplem as diferentes deficiências e as necessidades de cada atleta.



Bahia Run 360 — A ABADEF recebe pedidos ou reclamações de atletas interessados em participar das corridas?


Silvanete Brandão — Não recebemos especificamente reclamações sobre a organização das corridas. O que a ABADEF tem recebido são solicitações dos atletas para que possamos promover uma corrida inclusiva para as pessoas com deficiência.


Isso mostra que existe uma demanda e um interesse desses atletas em participar.

Bahia Run 360 — Os atletas PCD contam com apoio de patrocinadores, assessorias esportivas ou do poder público?


Silvanete Brandão — O que a gente sente é que os patrocinadores ainda têm muito desconhecimento sobre o atleta com deficiência. É preciso ampliar esse olhar e entender que o paradesporto também precisa de investimento e visibilidade.


As políticas públicas poderiam contribuir muito para ampliar essa participação. Já que a corrida de rua virou essa febre nacional, precisamos também organizar políticas públicas voltadas para o paradesporto que promovam e façam com que os atletas PCD se sintam contemplados na modalidade de corrida de rua.

Bahia Run 360 — Ainda existe preconceito ou falta de conhecimento sobre a inclusão dos atletas PCD no esporte?


Silvanete Brandão — Existe, principalmente, um desconhecimento sobre a inclusão no esporte e sobre o atleta com deficiência. Acho que ainda é um mistério para essa categoria.


E quem tem sofrido e ficado penalizado são as pessoas com deficiência e suas famílias.

Os organizadores precisam entender mais sobre o paradesporto e, sobretudo, sobre o atleta com deficiência. Inclusão não é simplesmente permitir que a pessoa esteja ali. É oferecer condições para que ela participe de forma plena, com segurança e dignidade.


Bahia Run 360 — Como a corrida de rua pode contribuir para a vida das pessoas com deficiência?


Silvanete Brandão — É uma importância maior do que pode se imaginar. A partir do momento em que a pessoa com deficiência se sente contemplada em estar ali na rua, junto com todas as outras pessoas, isso contribui para melhorar sua autoestima e sua qualidade de vida.


Melhora também o relacionamento com o esporte e com a família. A corrida faz com que a pessoa com deficiência se sinta contemplada e perceba que está rompendo com mais um capacitismo estrutural que existe em relação às pessoas com deficiência.


Incentivar a corrida de rua pode representar muito mais do que somente uma atividade física. É uma forma de promover a inclusão.

Bahia Run 360 — O que precisa mudar para que a corrida de rua seja realmente inclusiva para os atletas PCD?


Silvanete Brandão — Precisamos criar provas e categorias específicas, oferecer estruturas adequadas e ampliar o conhecimento sobre o paradesporto. Também precisamos de políticas públicas que incentivem a participação e de patrocinadores que entendam a importância desse segmento.


É preciso fazer com que o atleta com deficiência seja contemplado de verdade. Não basta permitir a inscrição. Ele precisa ter condições de participar, competir e ser reconhecido.

Bahia Run 360 — Que mensagem a senhora deixa para os organizadores e para os atletas PCD que desejam começar a correr?


Silvanete Brandão — A grande mensagem para os organizadores de eventos esportivos e para os atletas PCD é: façam. Vão para a rua e enfrentem os obstáculos.

A gente sabe que não é fácil.


As vias públicas também não estão adaptadas para as pessoas com deficiência e existe um preconceito estrutural muito grande, que faz com que a pessoa com deficiência se afaste da modalidade de corrida de rua.

Mas correr vai melhorar a saúde física, fortalecer os músculos e promover a saúde mental, além da possibilidade de conhecer outras pessoas. Vai trazer, principalmente, visibilidade para o atleta com deficiência.


Incentivar a corrida de rua pode representar bem mais que somente uma atividade física. É uma forma de promover a inclusão e fazer com que o poder público possa pensar em acessibilidade no mundo esportivo para todas as pessoas.

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