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Do primeiro passo aos 52 km: Rafael, o Bora Rafa, transforma a corrida em uma jornada de vida

Foto do escritor: Tiago Queiróz
Tiago Queiróz
8 de set.
6 min de leitura

Arquiteto, empresário, pai, maratonista e criador de conteúdo, Rafael Gonçalves transformou a própria experiência na corrida em uma narrativa de disciplina, superação e incentivo para quem ainda está dando os primeiros passos


A corrida entrou na vida de Rafael Gonçalves, conhecido nas redes sociais como Bora Rafa, sem grandes pretensões esportivas. Não havia, no início, preocupação com pace, distância ou performance.


O objetivo era bem mais simples: movimentar o corpo e buscar mais qualidade de vida.

O que começou de maneira despretensiosa acabou se transformando em uma jornada pessoal. Hoje, Rafael é maratonista, produz conteúdo sobre corrida e utiliza a própria trajetória para mostrar que o esporte não precisa começar com grandes metas. Para ele, o mais importante é começar — e entender que evolução exige tempo.


“Eu só queria me movimentar e melhorar minha qualidade de vida. E foi aí que a corrida começou a me ensinar coisas que foram muito além do esporte. Ela me ensinou disciplina, consistência e, principalmente, a respeitar processos.”

A experiência também mudou a maneira como Rafael enxerga desafios. Segundo ele, a corrida mostrou que resultados não aparecem de uma hora para outra.


“Você precisa construir. Um treino de cada vez, um quilômetro de cada vez. A corrida acabou se tornando uma conexão muito grande comigo mesmo e uma ferramenta para eu perceber que sou capaz de fazer coisas que, em algum momento, achei que não conseguiria.”

O começo foi no próprio ritmo


Antes das maratonas e dos longos treinos, Rafael enfrentou uma realidade comum a quem começa a correr: a dificuldade para sustentar poucos minutos de corrida.


“Eu comecei como muita gente começa. Sem conseguir correr por muito tempo. Alguns minutos correndo já eram suficientes para eu ficar cansado. E quando você olha alguém correndo 5, 10, 20 quilômetros, é muito fácil pensar: ‘Eu nunca vou conseguir fazer isso’.”

A saída, segundo ele, foi abandonar a comparação e aceitar o próprio momento.


“O maior desafio foi respeitar o meu momento. Era caminhar, correr um pouco, caminhar de novo e continuar. E foi entendendo que você não precisa correr rápido para ser corredor. Seu corpo vai evoluir com consistência, não com pressa.”

Essa experiência se tornou parte importante do conteúdo que Rafael produz. Em vez de mostrar apenas medalhas, treinos bem-sucedidos e momentos de celebração, ele decidiu também compartilhar as dificuldades.


“A corrida real não é só medalha, foto bonita e recorde pessoal. Tem treino ruim, tem dia em que você não quer levantar da cama, tem cansaço, insegurança, dor e prova que não sai como você imaginava.”, explica.
“Se eu mostrasse só os melhores momentos, eu estaria criando uma realidade que não existe. E eu quero que quem está começando olhe e pense: ‘Se ele também passou por isso, então talvez eu consiga continuar’. Para mim, essa identificação é muito mais importante do que parecer perfeito.”, completa.


Mais do que uma expressão


O “Bora” que acompanha Rafael nas redes sociais nasceu de maneira natural. Era uma expressão que fazia parte do seu vocabulário e acabou sendo incorporada pelos seguidores.


“O ‘Bora’ sempre fez parte da minha forma de falar. Eu sempre usei naturalmente. Com o tempo, as pessoas começaram a repetir, comentar e até gritar ‘Bora Rafa!’ nas corridas.”

“Hoje, ‘Bora’ representa muito mais do que ‘vamos correr’. Representa começa, tenta, dá o primeiro passo, continua. Você não precisa estar pronto para começar. Muitas vezes, você começa justamente para ficar pronto.”, acrescenta.

A mensagem também resume a proposta de Rafael nas redes: incentivar o movimento sem transformar a corrida em uma disputa permanente de desempenho.




Os primeiros 42 quilômetros


A chegada à primeira maratona representou uma mudança importante na trajetória de Rafael. Os 42,195 quilômetros da prova, porém, foram apenas a parte visível de uma preparação que começou muito antes.


“A maratona me ensinou que os 42 quilômetros começam muito antes da linha de largada. Começam nos treinos que ninguém vê, nas manhãs cedo, nos longões, no fortalecimento, na recuperação, na alimentação e, principalmente, em saber a hora de descansar.”

Para ele, a distância também impõe uma espécie de respeito. Não há como substituir preparação por motivação no dia da prova.


“Não dá para enganar a distância. Ela cobra preparação. A maratona me ensinou muita paciência e também a controlar a ansiedade.”

A disciplina, nesse processo, passou a ter outro significado.


“Disciplina é fazer o que precisa ser feito mesmo quando a motivação não aparece. A medalha representa algumas horas de prova, mas por trás dela existem meses de construção.”


Com a exposição nas redes sociais, Rafael também passou a lidar com uma questão recorrente entre corredores: a comparação. Ele lembra que pessoas que aparentemente fazem a mesma atividade podem estar em momentos completamente diferentes.


“Às vezes, uma pessoa está começando hoje enquanto outra já corre há cinco, dez ou quinze anos. Então não existe comparação justa. A gente vê o pace, o relógio, a medalha, a distância, mas não vê todo o caminho que aquela pessoa percorreu para chegar ali.”

“Cada um tem a sua corrida. Se ontem você não conseguia correr dois quilômetros e hoje conseguiu correr três, isso é evolução. Na corrida, o melhor parâmetro de comparação deveria ser você mesmo.”

A responsabilidade de influenciar


Transformar a própria experiência em conteúdo também trouxe, para Rafael, uma responsabilidade.


“Com certeza existe uma responsabilidade. As pessoas acompanham o que eu faço e podem tomar decisões baseadas naquilo que eu compartilho, principalmente quando falamos de saúde e exercício. Eu compartilho a minha experiência, mas cada área precisa ter o acompanhamento de profissionais. Treinamento precisa de orientação, fortalecimento é importante, exames são importantes e cada corpo é diferente.”

A preocupação, segundo ele, não é apenas fazer alguém começar a correr, mas fazer com que essa pessoa permaneça no esporte.


“Não adianta motivar alguém a fazer algo hoje e essa pessoa se machucar amanhã por querer pular etapas. Eu quero que as pessoas corram, mas, principalmente, que continuem correndo por muitos anos.”

Trabalho, família e corrida


Conciliar treinamento com trabalho, família e produção de conteúdo é outro desafio da rotina de Rafael. Em vez de esperar pelo momento ideal, ele aprendeu a encaixar a atividade física na realidade disponível.


“Muitas vezes, o horário perfeito não aparece. Então eu treino cedo, treino à noite, reorganizo o meu dia. O treinamento passou a ser um compromisso para mim, assim como uma reunião ou um trabalho. Assim como existe horário para uma reunião ou para um trabalho, existe um espaço reservado para cuidar da minha saúde.”

“Quem está começando não precisa ter uma hora por dia disponível. Pode começar com 20 ou 30 minutos caminhando. A pergunta não deveria ser ‘quanto tempo eu preciso ter?’, mas ‘qual espaço eu consigo criar dentro da realidade que tenho hoje?’”

Salvador e a força de quem corre junto


Rafael também destaca a transformação da corrida de rua em Salvador. A presença de grupos, assessorias, provas e corredores ocupando diferentes pontos da cidade ajudou a fortalecer uma comunidade cada vez maior.


Para ele, a própria característica da capital baiana contribui para isso.


“Salvador tem uma comunidade muito forte de corrida. Você vê grupos na orla, no CAB, na Paralela e em vários outros lugares. A cidade também ajuda, porque temos orla, subidas, trechos mais planos e cenários que são muito bonitos para correr.”

Mas, além dos espaços e das provas, existe um fator que considera ainda mais importante: as pessoas.


“A grande força está na comunidade. Uma pessoa começa, melhora a saúde, participa de uma prova, comemora uma conquista e acaba inspirando outra pessoa. A corrida acaba puxando mais gente para a corrida.”

Agora, o desafio é correr 52 quilômetros em dois dias


Depois da primeira maratona, Rafael já olha para novos desafios. E um deles é especialmente ousado: correr 10 quilômetros no sábado e os 42,195 quilômetros da Maratona Salvador no domingo, totalizando aproximadamente 52 quilômetros em dois dias.


“São 52 quilômetros em dois dias e isso representa um novo capítulo muito importante da minha jornada. O objetivo nunca será simplesmente colecionar medalhas. Quero colecionar histórias.”

Para quem ainda não começou


Se a corrida de Rafael começou com poucos minutos de atividade e muita dificuldade para sustentar o ritmo, sua principal recomendação para quem ainda está parado é justamente não tentar começar pelo resultado final.


“Comece com 20 minutos de caminhada. Repita. Depois, coloque pequenos períodos de corrida. Pode ser um minuto correndo e dois camin
hando. Aos poucos, seu corpo vai entendendo aquele estímulo.”
“Procure orientação profissional e faça uma avaliação se for possível. O grande erro é tentar fazer aquilo que outra pessoa está fazendo. Esquece a outra pessoa.”

A transformação está no caminho


Mais do que a conquista dos 42,195 quilômetros, Rafael considera que a maior transformação aconteceu durante todo o processo que o levou até a linha de chegada.


“A corrida me ensinou que a gente pode ir muito além do que imagina, mas quase nada acontece da noite para o dia. Existe processo. Existe repetição. Existe constância. Eu comecei sem conseguir correr por muito tempo e, anos depois, estava cruzando a linha de chegada de uma maratona. Mas a maior transformação não aconteceu naquele dia dos 42 quilômetros. Ela aconteceu durante todo o caminho.”

Por isso, quando fala com quem ainda está parado, Rafael não apresenta a maratona como ponto de partida. O ponto de partida pode ser muito menor.


“Você não precisa começar sendo bom. Você só precisa começar. Vai no seu ritmo. Misture pouco com constância que vira muito. Bora!”

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