Aos 72 anos, José Araújo Filho transforma corrida em estilo de vida e inspiração
- Tiago Queiróz
- 20 de mai.
- 3 min de leitura

Aos 72 anos, José Araújo Filho carrega uma rotina que muitos atletas mais jovens teriam dificuldade de acompanhar. Natural de Ipiaú, mas morando em Salvador desde cedo, ele encontrou na corrida de rua muito mais do que uma atividade física: encontrou uma nova forma de viver.
Hoje, ele não abre mão dos treinos diários, viaja para competir e transformou o esporte em uma ferramenta para inspirar outras pessoas.
Mas a relação de José com a corrida começou de forma improvável. Antes de calçar o tênis, ele levava uma vida sedentária, marcada pelo consumo frequente de bebida alcoólica e pelo excesso de peso.
“Eu era sedentário, gostava muito de beber. Cachaceiro, literalmente, com uma barriga danada de grande (risos). Hoje levo uma vida saudável. A atividade física eleva a sua qualidade de vida.”, relembra.
A mudança começou após problemas de saúde. Diagnosticado com hipertensão, José ouviu a recomendação de que precisava se movimentar. O início foi difícil. Primeiro vieram as caminhadas, depois uma esteira em casa, na tentativa de reduzir o peso e melhorar a qualidade de vida.
“Comecei então a andar para ver diminuía a gordura abdominal. Cheguei a furar uma conga em uma esteira elétrica que tinha em casa (risos).

O passo decisivo aconteceu em 2004, durante uma corrida de 5km promovida pela Petrobras. Naquele dia, o desafio era percorrer cinco quilômetros. José conseguiu correr apenas um.
“Só consegui correr 1 km. Fiquei quase um mês aleijado, mas não parei mais.”, conta entre risos.
A dificuldade, porém, não foi suficiente para fazê-lo desistir. Pelo contrário. O que começou como necessidade virou paixão. Ele passou a correr sozinho pelas ruas de Salvador, sem orientação técnica, aumentando progressivamente as distâncias até chegar às provas de longa duração. Desde então, a corrida virou parte inseparável da rotina. José já disputou provas de 5 km, 10 km, meias-maratonas e maratonas, acumulando quatro maratonas completas no currículo. Também transformou as viagens em uma mistura de turismo e esporte.
“Aí não parei mais. Todas as corridas de rua eu estava dentro. Cheguei a fazer 21km correndo em volta do Dique do Tororó”.
Ao lado da esposa, Dona Noêmia, conheceu 18 estados brasileiros por meio das corridas e também levou os passos para fora do país, participando de provas na Argentina e no Chile.
“Também já corremos na Argentina e no Chile”, completa.
A dedicação vai além das competições. José acorda diariamente antes das quatro da manhã para correr e faz questão de incentivar outras pessoas a adotarem hábitos mais saudáveis. Ao longo dos anos, criou grupos de corrida em academias e bairros onde viveu.
Entre as plataformas de corrida criadas por seu José está o grupo "Viver Bem", que conta com a participação de dezenas de pessoas.
“A idéia é motivar as pessoas a sairem da vida sedentária. No grupo somos todos amigos, sempre incentivando uns aos outros. Esqueça tempo, esqueça velocidade. O importante é querer chegar”, costuma dizer.

Muitos dos participantes que começaram sedentários ao lado dele hoje fazem parte ativamente do universo das corridas.
A trajetória também foi marcada por desafios ainda maiores. Há cerca de 15 anos, José recebeu o diagnóstico de câncer de próstata. Após a cirurgia, contrariando a cautela que muitos esperariam, decidiu participar de uma prova sobre a Ponte Rio-Niterói poucos dias depois da retirada dos pontos.
“Foi sofrimento, mas cheguei”, lembra.
Passado o período difícil, ele seguiu acumulando quilômetros e histórias. Percorre sozinho trajetos extensos por Salvador, atravessando bairros, enfrentando ladeiras e transformando a cidade em pista de treino.
Se antes as festas eram acompanhadas por bebida, hoje os aniversários ganharam outro formato: corridas entre amigos e confraternizações ligadas ao esporte.
“Minha cachaça hoje é a corrida”, resume.
Pai de Rogério e Amanda, José conta que os filhos até reclamam dos excessos, mas reconhecem o impacto positivo que a prática trouxe para sua vida. Para ele, o esporte significou mais do que saúde física: ampliou o círculo social, criou amizades e deu um novo sentido ao cotidiano.
E quando questionado sobre a possibilidade de parar, a resposta vem imediata:
“Não, não. Se eu não correr, fico triste.”

Companheira - dona Noêmia Araújo, de 68 anos, também teve a vida transformada pela corrida. Inspirada pela trajetória do esposo, ela acabou entrando no universo das provas de rua quase sem perceber.
“Eu ia nas corridas com ele e servia de guarda-volume”, relembra entre risos.
Pouco tempo depois, começou a participar dos percursos. Ao longo dos anos, enfrentou desafios importantes de saúde, como um infarto, um AVC e uma cirurgia na coluna, mas não deixou o esporte de lado.
“A corrida hoje representa tudo em nossas vidas. Graças a Deus, estou perfeita e continuei correndo”, afirma.
Ela também destaca uma característica marcante do marido: a capacidade de incentivar quem está ao redor.
“José tem uma doença boa: está sempre motivando as pessoas a correr.”
